O CONTO INACABADO DE Meruk Adar
Escrito por Mithus Ohlavrac
“Sinta minha presença durante sua vida,
Eu sou aquele que chamam pelo nome de morte,
Vou apanhá-los, vocês não tem por onde escapar,
Meu poder só foi derrotado uma vez,
Até o mais robusto ser deste Universo será tocado por mim.
Só não posso tocar a essência de sua existência,
Eu, Eu posso tocar seus corpos,
Posso tocar criancinhas em seus berços,
Velhos em seus leitos,
Destruo a alegria de casais,
Crio a alegria dos solitários,
Quero você!
Vou levá-lo comigo.”
Meruk Adar, meu nome. Nascido aos vinte e três dias do quinto mês babilônico. Deveria ser um dia auspicioso para meu pai, ouvir o choro de um varão, seu sangue! Ele estava fora do quarto em que era acompanhado ato de meu nascimento, pela parteira de nossa comunidade, em constante apreensão. O choro de um menino foi ouvido naquele dia, a alegria de uma mãe não, esta expirou quando a criança saiu-lhe das entranhas. O ano? Não me há lembrança deste.
Se fui amado? Devo dizer que tive o que se deveria esperar de um pai, dado que logo ao nascer o decepcionei, tirando o que até então lhe era mais caro, sua esposa. Não, ele não me culpou, mas seu interior, creio, seu subconsciente assimilou a idéia de que aquele garoto tinha maus auspícios. Tirara-lhe a alegria.
Assim, nascido, habitei sua casa como uma criança comum. Uma casa feita de tijolos de palha, barro e excremento de bovinos, paredes lisas recobertas por fina camada de argila, bem trabalhadas, em nada demonstrando o material de que eram feitas. Muito bem limpa por minha ama de leite. Esta às vezes fazia às vezes de minha mãe no leito de meu pai, nunca, no entanto lhe deu um varão a mais, somente três filhas, o que não era importante em nosso reino. Um varão iria para guerra, poderia defender seu rei. Poderia ser um capitão, como meu pai era, mas, mulheres... Ao casá-las, iriam embora com os maridos. Serviam, portanto, apenas para estreitar laços de família. Cabia a mim, Meruk, defender os ideais que me foram passados por meu pai, quando em vida.
Não era uma casa pequena, o que me permitia brincar e viver com espaço a sobrar em meu ambiente. Algumas estátuas de deuses pelos cantos da casa, diziam que era para dar proteção! Meu pai gastou muitas de suas reservas para mandar construir uma estátua de um leão babilônico em tamanho natural, no que era nossa área de entrada, ou seja, como o tamanho de um leão adulto, com suas asas de águia e sua cabeça humana. Aquilo me impressionava quando era ainda uma criança. O chão, de pedras lisas e lustradas me permitia brincar com pequenos apetrechos que eu mesmo construía, o que me valeu, quando um dia, a observação de meu pai, que comentou: “Acho que temos um engenheiro militar em mãos”. Havia alguns amigos seus ao redor quando este comentário foi feito, o que resultou no afago de um deles. Senti sobre a cabeça aquela mão pesada de quem está acostumado a usar a força pela espada. Fiquei feliz em saber que era apreciado por meus dotes e inteligência pelos militares. Senti-me um deles já então. Não sabia que era este meu destino. Já estava traçado!
Quando completei minha oitava primavera, em um de meus momentos de brincadeira com meus apetrechos de combate, aqueles que eu mesmo construía, fui informado por minha ama de leite que já era hora de tornar-me um homem! Seria enviado para treinamento militar e meus dias com certeza terminariam em algum campo de batalha, gloriosamente. Eu não fazia idéia do que era isso!
Duas semanas depois, meu pai veio me informar que era hora de dar-lhe muito orgulho, “Você não deverá chorar. Entendeu? Será o maior soldado que este reino já teve, por mim e por sua mãe!”, disse ele, um olhar que eu não sabia se era de alegria, tristeza, expectativa ou o que quer que fosse. Eu estava com medo!
Fui acompanhado até a porta da escola de treinamento militar por meu pai. Nunca me senti tão importante, imponente até então. Meu pai conversou com os homens que guardavam os portões da guarda da escola, homens ameaçadores na aparência, não os temi. Meu pai não os temia, portanto estava bom para mim. Entrei, os portões foram fechados. Meu pai? Não estava mais lá. Somente o veria seis primaveras depois.
Um dos guardas dos portões acompanhou-me até um local que era um salão. Muitas camas arrumadas em um padrão só. Notei com o tempo que este soldado, apesar de seu aspecto duro e ameaçador, era um bom homem, apenas era treinado para combater, e se um dia o nosso comandante o mandasse cortar uma de nossas cabeças, ele o faria! Aprendi a ser assim também.
Os primeiros dias foram de adaptação. Éramos duramente tratados, mas não desumanamente, ensinavam-nos a ser homens duros com o inimigo, qualquer que fosse. A ordem incutida em nossas mentes era, “Um inimigo morto é tão bom quanto um amigo vivo! Um prisioneiro deve ser alimentado, cuidado, portanto, não façam prisioneiros, não se façam prender tampouco! Morrer com uma espada desembainhada é honroso para vocês e para suas famílias, muito mais matar com elas. Poderão ver a festa que será feita para nós quando voltarmos das batalhas! Voltem vivos e vitoriosos!”.
Minha primeira primavera na escola de treinamento de soldados foi como diria, uma adaptação. Levantávamos antes do raiar do Sol com um soldado já formado a nos chamar com voz tonitruante no salão que era agora nosso refúgio, meu e de mais umas oitenta crianças de minha idade e estatura, era o que me parecia, uns um pouco maiores e outros menores,”Atenção soldados, acordar, acordar!”. O aspecto bélico estava em todos nós. Eu mesmo agia como um pequeno galo de briga, precisava me impor, conquistar meu território moral no meio daquela turba de crianças. Não havia brincadeiras, poucos amigos, se é que existiam, a competitividade era constante e instigada, nunca a traição. Ninguém lá estava para ser educado como cidadão comum, respeitador de leis e pacífico. Éramos doutrinados a amar o rei, odiar nossos inimigos. Proteger o rei, depois nossas famílias, então o povo. Eu descobriria que isso valor algum tem em um campo de batalha.
Um dia, estávamos em um de nossos treinamentos como arqueiros quando fomos chamados a ver nossos guerreiros partir. Iam a uma campanha contra os de Israel, o rei deles àquela época chamava-se Oséias filho de Ela, sua cidade estado era Samária. Nosso mui poderoso, honrado e ditoso Salmanasar, rei de toda Assíria subiu contra ele com um mui grande contingente de nossos soldados e carros de combate e máquinas de guerra, arqueiros sem conta, miríades de cavaleiros. Vimos, já em forma, a parada que se encaminhava para fora da cidade pelos portões. Não sabíamos, mas esta campanha duraria ainda mais de três anos, estes, gastos somente com o cerco à cidade de Oséias. Não teria o mesmo desonrado nosso soberano e já não lhe pagava mais tributos como deveria? Depois de três anos de cerco e uma encarniçada luta que teve por palco cada muralha, rua, casa da cidade, muito sangue derramado, por causa somente da vaidade deste rei. Nosso poderoso exército tomou a cidade com mui grande despojo. Os habitantes, ou o que restou deles, estavam como trapos e frangalhos. Foram deslocados para nosso país, na região chamada Hala, junto a Habor, o rio de Gozã e em nossas cidades. Nós medos necessitávamos de mão-de-obra escrava, servos, portanto. Nos cabiam bem, afinal. Eram apenas um povo conquistado.
Tomamos suas terras, nossos colonizadores foram morar em Samária. Gente de Babilônia, Cuta, Ava, Hamate e de Sefarvaim colonizaram suas terras, foi uma boa estratégia de nosso rei, conquistar o povo e desterrá-lo, ocupar suas terras com gente nossa. Nunca mais eles as teriam de volta. Seriam um povo absorvido pelo nosso e nossa cultura. O estranho foi que tivemos sérios problemas com leões naquelas áreas, pelo que nos foi informado. Nosso povo estava sendo literalmente caçado por seus bandos. Era inacreditável! Foram-nos enviados alguns sacerdotes dos que lá habitaram para ensinar-nos como agradar o Deus daquelas terras, para que tal não ocorresse. Nosso povo, porém, preferiu seus próprios deuses. Os babilônicos, Sucote-Benote, os de Cuta fizeram Nergal, os de Hamate fizeram Asima, os aveus fizeram Nibaz e Tartaque, e os sefarvitas continuaram sacrificando seus filhos a Adrameleque e Anameleque, seus deuses, alguns, porém, adaptaram-se ao novo Deus.
De fato eu não estava lá, ainda treinava em meu quartel-escola em minha terra, apenas ouvia estas estórias e imaginava-me também combatendo, destruindo e conquistando. Não sabia ainda o que era matar, não ouvira ainda o clangor das armas, os gritos da batalha na guerra, a adrenalina borbulhando no sangue. Não, não sabia nada sobre isso, tinha ainda completado minha décima segunda primavera, um garoto forte, robusto, cheio de vida e destinado a ser um honrado homem, assim pensava eu.
Quinze primaveras. Começara o treinamento em campo. Nossa primeira escaramuça. Lá estava o grupo de assaltantes que estávamos perseguindo já havia algumas luas. Estes já haviam ficado famosos por suas peripécias e crueldade entre os habitantes de nossas cercanias. Nossos batedores fizeram um bom trabalho na busca de seu esconderijo, até mesmo a encontrá-lo. Fizemos um plano de ataque, éramos em cinqüenta jovens guerreiros. Eu, Meruk Adar, teria meu primeiro combate. Era-me algo excitante e ao mesmo tempo assustador. Possuía forte compleição, havia sido treinado para o pior, no entanto, nunca havia matado um homem antes! Hoje seria diferente.
Não tínhamos pressa. Era madrugada e a manhã ainda tardaria a chegar. O esconderijo ficava em uma clareira sob a copa das árvores, junto a um riacho que tranqüilamente corria com suas águas límpidas, em uma junção entre duas montanhas. Uma floresta de cedros os circundava. Deixamo-los em paz por um bom tempo, alguns meses talvez, antes desta empreitada, para que não suspeitassem que seu refúgio poderia ser atacado, ou pelo menos relaxassem a vigilância, sempre observando sua forma de agir, as formas de suas fugas, nada nos escapou. Este seria seu último amanhecer, alguns nem o veriam, conhecíamos até seu acampamento. Cabanas, nas quais viviam cinco homens e suas mulheres em cada uma delas, trinta homens e suas mulheres, três delas grávidas, sem contar com a cabana que ficava ao centro que pertencia ao chefe e suas duas concubinas. Uma lástima. Era quase uma aldeia, não fosse sua forma de vida. Sempre com três sentinelas que ocasionalmente dormitavam em seus postos, indolência que meu treinamento era punida com severidade, aqui apenas uns tapas e chutes junto com imprecações do líder.
Lentamente, nós, divididos em dois grupos de vinte e cinco, liderados cada um por dois soldados já experientes em técnicas de combate, e silenciamento de sentinelas. Aproximamo-nos rastejando literalmente pela relva e folhagem da mata. O frio e umidade do solo faziam-se sentir em nossas peles, não usávamos armaduras, apenas protetores de couro como peitorais. Este era um treinamento de batedores e caçadores de cabeças especialistas em ataques relâmpagos. Ao sinal de nossos líderes, que estavam sempre juntos, meu grupo parou. Mal respirávamos. A tensão estava no ar. A primeira sentinela que cuidava do flanco esquerdo do esconderijo também à esquerda de nossa posição, despercebidamente cochilava, sentado junto a uma árvore. Nosso líder maior rastejou pela floresta, devagar, nem um ruído, um braço á frente, uma perna á frente, como um lagarto, sua adaga entre os dentes. Silêncio. Somente o farfalhar do vento e o ruído dos grilos na madrugada. A Lua iria assistir uma cena desagradável. Pareceu-me engraçado, mas uma nuvem a cobriu no momento da ação, como se ela estivesse escondendo-se para não ver. Uma mão como uma tenaz em uma garganta, um rosto assustado e sufocado, olhos arregalados. Uma faca sibila no ar, crava-se no peito da vítima, esta não consegue sequer emitir um grito de dor, tamanha pressão em sua laringe. Tenta se livrar e está bem preso. Esperneia, ou pelo menos tenta, por uns instantes, logo, logo seu corpo retorce em espasmos, o sangue corre se esvaindo e a vida também, com a mesma rapidez. O pobre homem logo jaz no solo, com ligeiros tremores. Rastejamos por entre a relva, ao lado do corpo, pudemos vê-lo. O sangue a escorrer pela boca, os olhos sem vida já voltados para órbita superior, um grande buraco no peito com algum sangue a borbulhar. Nenhum movimento mais, somente o nosso.
Observamos. A segunda sentinela já havia também sido silenciada. Nem vimos como foi, tamanha a pressão que nos circundava naquela hora. Havia um terceiro ainda fora de nosso alcance. Era imperativo que também fosse atingido e derrubado com silêncio, a ação deveria ser de uma surpresa completa, isso acarretaria para nós um mínimo de baixas. Nosso primeiro combate, uma gloriosa vitória.
Um grito! Um grito não de dor, mas de guerra! Alguém salta de uma árvore e cai sobre um dos nossos quebrando-lhe a espinha dorsal, um homem que ainda não havia sido visto por nós. O que fazia este em cima de uma árvore aquela hora da madrugada? Rapidamente pisa a cabeça de outro dos nossos e crava-lhe uma adaga à nuca, com força, muita força, o rapaz nem gritou, a lâmina atravessou seu pescoço e enterrou sua ponta no solo úmido. Este era um guerreiro experiente, pelo que pudemos ver.
- Ataquem! - gritou nosso líder – Pelo rei!
O que se viu daí foi uma encarniçada luta. Feroz. Daqueles que lutavam pela vida e aqueles que caçavam. Estranho ou loucura, resolvi atacar o guerreiro. Tive sorte, ele acabara de erguer um dos nossos apenas segurando-o com sua enorme mão na face como se o garoto de quinze anos ali pendurado fosse um boneco. O rapaz esperneava e gritava. A luta agora era por todos os lados. Ele estava de costas para mim e acabara de cravar sua espada na infeliz presa em suas mãos. Reuni toda minha força brandindo minha arma e a arremeti com toda energia que poderia desferir, mais pelo medo de não efetuar um bom golpe que do resultado que daí poderia vir. Tamanha força foi despendida que minha espada quase cortou o guerreiro ao meio. Ouvi quando ele gritou de dor e caiu como um saco de carne e ossos, já sem vida, apenas trêmulo pelo impacto ocorrido. Meus amigos estavam engalfinhados na batalha e esta já estava em seu fim, tinha sido rápido. A vitória era nossa! A duras perdas! O elemento surpresa ainda surtira algum efeito, mesmo depois da ocorrência inesperada.
Dos homens do acampamento, apenas um sobreviveu, sem o dedo polegar da mão direita. Grande lucro! Seria julgado e condenado a decapitação em praça pública. Uma das mulheres grávidas estava ainda viva, dentre três que sobreviveram. Por estar já com adiantada gravidez, fora poupada. Possivelmente após o nascimento da criança, esta seria sacrificada e sua mãe decapitada também. As outras duas severamente feridas, também foram acorrentadas junto ao homem, seus destinos seriam os mesmos. Dos nossos, doze rapazes foram feridos sem gravidade, cinco morreram miseravelmente, três nas mãos do guerreiro que abati, isto me deu boa fama entre os meus amigos. Ganhei suas armas como despojo pela boa caça. Estava ali nascendo um guerreiro.
Quando completei minha décima sexta primavera, formei-me soldado com meus companheiros. Das noventa crianças que começaram o treinamento, oitenta e dois soldados formaram-se, oito morreram, quando em treinamento, um deles suicidou-se com sua própria adaga, em desespero cortando os pulsos. Nenhum desistiu, não havia desistência para nós, só desonra para família. Ninguém se atreveria a levar isto para casa! Fui tomado por bom soldado logo no início, pois minha história já se contava. Não era todo o grupo que se formava já com alguém que tinha derrubado um soldado experiente. Isto foi citado e gravado pelos escribas que registraram minha chegada ao exército do rei.
Ia-me pelo meu décimo sétimo aniversário quando meu pai foi enviado a combater grupos rebeldes na região do antigo povo israelita. Eu me lembrava daquela gente. Não adoravam nossos deuses, tentavam que adorássemos o Deus deles. Quem era essa gente? Nem mais habitavam suas terras, mas falavam como se fossem donos da verdade.
Certa feita foi-me encaminhada ordem de ir a região de Hala com um grupo de nossos guerreiros para averiguar o povo e suas aspirações. Encontramos um povo derrotado, sim, mas com uma presença de espírito que nunca vi antes, era como se não fossem eles os conquistados! Não era o que eu esperava de uma nação submetida. Suas casas eram limpas, seu povo não andava andrajoso como quando vieram para nossas terras. Ao meu ver, parecia que aquela gente vivia lá já havia muito tempo, como se fossem donos da terra.
Eu era agora um jovem guerreiro. Tinha o porte de um homem, força de um homem, já me crescia alguma barba e apesar de minha aparência, dizia minha ama de leite, meiga, procurava manter um ar feroz o bastante para intimidar qualquer que pensasse outra coisa em contrário. Era bem sucedido.
Passei lá duas primaveras. Contava agora com dezenove já percorridas.
Manhã. Acordei em meu alojamento e o Sol ainda não despontava no céu totalmente. Levantei-me e sentei em minha cama com as pernas cruzadas à moda oriental esticando os braços para frente e retesando os músculos das costas, ainda com certa letargia matinal. Emiti um som como um grunhido de satisfação ao prazer dos músculos esticados obtendo um bom e satisfatório alongamento. Levantei, arrumei minha cama, esta era de madeira rústica e cordas, forrada com um colchão feito de palhas e lã de carneiros. Vesti minha túnica, cingi-me de meu cinto com adaga, deixei sobre meu leito as minhas armas mais pesadas – meu machado de guerra, meu escudo e minha espada. Ao lado da cama, a couraça de bronze, minha lança, arco e aljava repleta de flechas. Não estava em atividade neste dia, tinha-o nas mãos para relaxar.
Saí logo após o desjejum matinal a caminhar pela redondeza e respirar o ar puro da manhã. O muro que circundava as habitações possuía cerca de quatro metros de altura, feito de blocos de rocha. Retirei-me de nosso quartel pela saída lateral. Uma abertura pequena parecida com as chamadas agulhas em muralhas laterais de cidades. Estas não possuíam nem mesmo portas para que pudessem ser fechadas. Tinham sua finalidade, um guerreiro não conseguiria passar por estas portando todo seu aparato de guerra, apenas o mínimo necessário, o que certamente proporcionaria a este uma morte rápida nas mãos da guarnição que se encontrava sempre alerta ao lado interior da amurada. Segui por uns duzentos metros, pela trilha que ladeava o quartel, me afastando gradativamente, sentindo o sol da manhã aquecer minha pele de forma aprazível. Estava realmente em paz com aquela região. Terra conquistada, terra agradável.
Caminhei atravessando os campos de trigo que circundavam nosso forte, no sentido dos montes, com as palmas das mãos voltadas para baixo podia sentir as flores do trigal a roçar e um agradável prurido fazia-se, o Sol tornando minha caminhada agora já um pouco cansativa, mas ainda prazerosa. Subi uma colina, de onde pude ver, como se diz, “até onde a vista alcança”, e ao longe via-se alguns pastores israelitas cuidando de suas ovelhas. A paz era completa, o vento esvoaçava meus cabelos, agora relativamente longos, era como se massageasse minha alma, tamanha era a tranqüilidade naquele momento. Sentei-me sobre uma rocha e observei. Sim, sim, em paz...
Tudo muito rápido. Vi quando os vultos se aproximavam. Havia três pastores, aproximavam-se sorrateiramente deles cinco homens e suas escuras roupas de pilhagem e combate. Os pobres camponeses estavam infelizmente distantes um do outro cerca de cem metros. Formavam um triângulo que cercava o rebanho, no entanto, os salteadores vinham em grupo em direção a um deles. Não haveria tempo de salvá-lo, mas aos outros havia uma chance. Distavam de mim uns oitocentos metros. Gritei, mas o vento estava contra minha voz. Ninguém ouviu. Comecei a correr em direção aos salteadores, isto também não ajudou. Um dos pastores viu-me primeiro e entendeu que eu estava correndo para atacar seu companheiro. Começou a vir em minha direção ameaçadoramente, brandindo seu cajado em punho. Apontei para o outro pastor agora já sendo retalhado pelas adagas dos salteadores. Saquei minha adaga e juntos, eu e os dois outros restantes corremos em direção aos oponentes. Durante o trajeto abaixei-me rapidamente apanhando uma pedra com a mão esquerda, minha adaga já pronta à destra. Ao aproximar-me do primeiro salteador, ameacei atirar-lhe a pedra, este instintivamente ergueu os braços para defender-se. Por baixo de sua guarda aberta cravei minha adaga entre suas quarta e quinta costelas. Pude sentir minha lâmina cerrando os ossos enquanto ouvia o grito de dor. Não esperei muito mais, havia ainda muito que fazer. Empurrei o corpo de meu oponente, sem saber ainda se o mesmo estava ou não vivo e já prontamente parti para o próximo. Neste ínterim, um dos pastores, enterrou fundo a ponta de seu cajado no peito do quarto facínora, jogando-o para trás, de costas no chão. Apoiou-se no corpo caído com a ponta do próprio cajado e foi-se com os pés no peito do terceiro, derrubando-o. Quando caiu sobre ele, já tinha uma faca de tosquia em suas mãos. Degolou o homem com facilidade. Um deles prontamente começou a fugir. O outro que sobrou, tentou correr, mas foi lancetado pelo outro pastor, este defensor um pouco mais baixo que ou outro, que o seguia. Caiu urrando de dor e esvaindo-se em sangue, pois a lança havia atravessado sua coxa direita. Logo em seguida, saíram em perseguição ao fugitivo, tamanha era a tensão que esqueceram-se do ente ferido.
Fiquei sozinho, eu o rebanho, três corpos de salteadores, um corpo de um pastor, um ferido gritando, com o cajado atravessado em sua perna. Ignorei os apelos do bandoleiro. Fui até o pastor estendido no chão, haveria a chance de haver vida, se houvesse, valia a pena ajudar um homem honrado. O ladrão deixei, agora gemendo, começava a enfraquecer por seu sangue já estar rarefeito em suas veias.
- Ajude, ajude! – Disse em meu idioma.
Nem olhei para ele.
Fui até o pastor, havia ainda respiração, fraca, mas havia.
Tinham-lhe rasgado o peito, mas sua roupa protegera-lhe em parte. Havia muito sangue e também tinham-lhe esfaqueado as pernas e nádegas. Somente um ferimento realmente inspirou-me preocupação, um furo nas costas que borbulhava sangue. Talvez este o eliminasse. Fiz o que pude. Havia bolsas de água, estas eram feitas de couro de animais, o que ajudava a conservar a água ainda fresca. Lavei os ferimentos do pastor, enrolei-o em sua túnica, coloquei-o sob a sombra de uma rocha e fiquei esperando em guarda. Não podia facilitar, poderia haver mais desses oponentes por perto. O bandido ferido agora gemia fracamente, fui até ele, olhei bem em seus olhos cheios de esperança e disse:
- Você vai morrer, cara!
O Sol já vinha alto, quando os outros voltaram. Haviam sido bem sucedidos na caçada, pois traziam consigo uma bolsa com o despojo do oponente fugitivo. Prontamente chegaram, já atenderam seu companheiro com ungüentos, ervas e remédios que possuíam. Um deles chamava-se Abraão, falavam minha língua, disse-me que este nome fora-lhe dado em homenagem a um grande patriarca de sua nação, o outro chamado Eliabe era silencioso e tratava aquele que jazia com esmero e um ar preocupado, era seu irmão Mefibosete. Ao anoitecer para desespero de ambos, Mefibosete parou de respirar. Sem reservas, ambos choraram em alta voz, amargamente, isto me comoveu, apesar de ficar apenas em pé ao lado, cabeça baixa em reverência.
Sepultamos o pobre homem, os corpos dos salteadores jaziam no solo, o último que morreu ainda estava com o cajado cravado na perna, ali permaneceria, o destino deles eram os chacais. Lá ficaram. Despedimo-nos. Fui convidado a visitar a aldeia dos pastores, mais ao norte, como amigo honrado, eu não me esqueceria dessa oferta. Voltei ao aquartelamento o mais rápido que meus pés podiam, antes que dessem por minha falta.
Chegando, ao atravessar a agulha na amurada, encontrei um de meus companheiros, postei-me junto à fogueira que eles tinham, fazia frio, eles estavam comendo um guisado de carneiro e lentilhas e a lua já ia alta, ofereceram-me e compartilhei o jantar e os acontecimentos com os meus.
- Para quem foi dar uma volta, você teve mais ação que todos nós aqui. Disse-me Atarak, já havíamos passado poucas e boas juntos. - Que maçada, não? Vai dar uma volta em um dia de folga e arruma uma confusão dos infernos!
Todos concordamos que de fato havia acontecido algo incomum para um dia de descanso, no dia seguinte eu comunicaria o ocorrido ao meu superior, comporíamos uma força de polícia e vasculharíamos a região a procura de mais salteadores. Conversamos ainda um pouco sobre mulheres e nossas vidas na caserna. Quando o assunto se esgotou finalmente fiquei ainda algum tempo olhando as chamas da fogueira tremeluzindo e aquecendo minhas pernas do frio. Pensei que talvez pudesse ser eu a estar naqueles campos, servindo de alimento as bestas selvagens que habitavam a região. A vida era realmente estranha e dura. Por que eu não pude somente aproveitar o dia? Meus companheiros pastores disseram-me que Deus havia me colocado lá naquele momento. Eu, por ter sido criado como soldado, não acreditava muito em destino, acreditava sim, que ficar vivo em combate era bom. Eu estava aqui, agora, vivo. E isto era bom!
“Vivo, vivo, apenas vivo, eu e minha adaga, eu e minha espada, eu e meu escudo, eu e minha lança, eu e meu cavalo, meu ar, minha água, minha terra, meu fogo.” Pensei comigo.
Inspirei o ar frio da noite e pus-me a pensar nas coisas que já havia vivido. Uma boa vida quando criança em casa de meu pai, uma dura e disciplinada vida no quartel e agora como soldado. Nenhuma guerra até agora. Quando poderia mostrar meu valor a meu pai? Ele já havia combatido em várias conquistas de meu reino, eu apenas escaramuças e combates com salteadores. Bem, não importa, o que tem de ser é. Amanhã, se não houver nenhuma ordem importante, levarei uma patrulha a aldeia dos pastores para conhecer aquela gente. Os olhos já me pesam e sinto necessidade de dormir. Levantei-me e saudei meus companheiros, caminhei até as latrinas onde urinei com prazer, estava com a bexiga muito cheia, logo após, fui até o poço perto de nossa fonte de água, um pequeno olho d’água cercado por uma mureta de pedras de onde surgia um riacho, onde fiz minhas abluções, matei minha sede, fui ao alojamento sem pressa caminhando pela cobertura que o ladeava. Ainda dava para ver a Lua que ia alta no céu muito cheio de luminares. Eu realmente estava satisfeito e cansado! Quando entrei e cheguei à minha cama, apenas retirei minhas armas de sobre ela e me atirei despreocupadamente de bruços quase que dormindo instantaneamente. Tudo se tornou escuro.
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